Fragmento
What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.[…]
These fragments I have shored against my ruins
Why then Ile fit you. Hieronymo’s mad againe.
Datta. Dayadhvam. Damyata.
Shantih shantih shantih1
T. S. Eliot – The Waste Land
José Teixeira Ribeiro iniciou as suas pesquisas plásticas há já largos anos e a sua atividade pauta-se por um processo de pratice based research, ou seja, um processo de investigação e experimentação do qual vêm resultando obras significativas, que reúne em conjuntos com profunda coerência conceptual e plástica, que vem expondo publicamente em exposições realizadas em espaços significativos. Mas, ao contrário de muitos autores que entendem estar presentes com obras suas em várias exposições coletivas e que têm uma produção numerosa, José Teixeira Ribeiro não participa em exposições coletivas. Efetivamente alheio à lógica de uma presença expositiva assídua, privilegia uma criteriosa economia de aparições públicas, fazendo coincidir cada exposição com um momento de particular maturação do seu percurso plástico, algo que é evidenciado a cada apresentação do seu trabalho.
Assim, cultiva uma deliberada parcimónia expositiva, circunscrevendo habitualmente a apresentação pública da sua obra a uma mostra anual, criteriosamente concebida e preferencialmente acolhida em espaços de particular relevância institucional e cultural, como sucedeu com as exposições realizadas no Museu Municipal de Penafiel, no Palácio Baldaya em Lisboa ou no EspaçoArtes da atual Universidade Politécnica de Lisboa.
Apesar disso, mais do que os espaços expositivos de natureza formal, privilegia contextos heterodoxos, capazes de estabelecer uma relação mais estreita com a especificidade da sua produção plástica, para os quais concebe frequentemente obras de raiz, em particular instalações. Tal opção não o impede, porém, de se apropriar de espaços mais convencionais, submetendo-os à lógica das suas intervenções, como sucedeu no já referido Palácio Baldaya, onde apresentou um conjunto de obras em torno da vida e da criação literária de António Lobo Antunes. Ainda assim, e perdoe-se a insistência, é na conceção de instalações site-specific que esta vertente da sua prática artística encontra uma expressão particularmente consequente, como demonstram as intervenções realizadas no Hospital Militar da Estrela ou no Hospital de Sant’Ana, na Parede, lugares cuja identidade, memória e espacialidade se tornam matéria integrante da própria obra.
Entre as exposições realizadas, merecem ainda particular referência a mostra acompanhada de performance, apresentada no Convento de Jesus, em Setúbal, e a exposição de dimensão monumental concebida para o Forte de São Julião da Barra, na qual apresentou diversas obras criadas especificamente para aquele lugar, explorando as singulares qualidades espaciais, cenográficas e quase teatrais da arquitetura fortificada.
Depois, importa assinalar a sua invulgar capacidade de trabalho, traduzida, ao longo dos últimos anos, numa dedicação progressivamente mais intensa à criação plástica.
A esta dimensão quantitativa corresponde uma crescente afirmação autoral. No domínio das técnicas e da linguagem plástica, a sua obra adquiriu uma identidade própria, reconhecível, particularmente evidente na conceção de intervenções site-specific, em que criação e lugar estabelecem uma relação indissociável.
Mas é talvez no plano temático que mais claramente se afirma uma linha de continuidade. José Teixeira Ribeiro prossegue um caminho que antecede a sua própria afirmação enquanto criador plástico e que começa hoje a constituir uma das marcas distintivas da sua obra: a defesa do Planeta. Não se trata, pois, de um tema circunstancialmente incorporado na sua produção artística, mas de uma preocupação que o define enquanto homem e cidadão. A sua profunda ligação à Natureza e a inquietação perante as alterações climáticas encontram tradução plástica em obras que interrogam algumas das suas manifestações mais dramáticas, da crescente escassez da água à progressiva extinção das espécies.
Nesta exposição, essa preocupação cristaliza-se de forma particularmente eloquente, tomando como objeto uma espécie absolutamente fulcral para o equilíbrio dos ecossistemas e, por consequência, para a própria viabilidade do planeta: as abelhas. Cada vez mais ameaçadas, perecem não apenas perante os seus inimigos naturais, vespas, vespões, algumas aves, aranhas e outros predadores, mas, sobretudo, em consequência de pressões decorrentes da ação humana: a expansão urbana e consequente perda e fragmentação dos habitats, a redução da diversidade floral, a utilização de pesticidas e outros agentes poluentes e as alterações climáticas. A estas ameaças vem ainda somar-se a crescente presença de espécies invasoras, como a vespa-asiática, predador particularmente agressivo das abelhas e fator adicional de perturbação das colónias.
Tal concretiza-se plasticamente através de uma linguagem que permanece fraturante, mas na qual, mais do que a adoção de um novo caminho circunstancial ou de uma mera fórmula plástica destinada a perpetuar-se, se reconhece uma verdadeira via de investigação, progressivamente consolidada e aprofundada. Importa, a este propósito, atender às próprias técnicas de criação e à paleta cromática que vem caracterizando a obra do autor. O processo inicia-se em assemblages de pequena dimensão, posteriormente transpostas e transformadas à escala, sem que, nesse percurso, se perca a coerência da linguagem. Agora, como se observados através de uma lupa gigantesca, os fragmentos ampliam-se e autonomizam-se, abrindo uma nova possibilidade de investigação plástica. E é precisamente para a compreensão desse novo caminho que nos é oferecida uma primeira pista na própria epígrafe da exposição: FRAGMENTO.
Há um poema particularmente sugestivo de Percy Bysshe Shelley, Ozymandias of Egipt, que mereceria ser mais frequentemente convocado, nomeadamente neste contexto. Nele, o poeta confronta-nos com os fragmentos de uma escultura de dimensões colossais, reduzida a vestígios dispersos: duas enormes pernas permanecem erguidas, enquanto, parcialmente soterrado na areia, jaz um rosto despedaçado; do torso, porém, já nada resta. É precisamente a partir desta monumentalidade desfeita, desta tensão entre a grandeza que a obra outrora proclamava e a condição fragmentária a que o tempo a reduziu, que Shelley constrói uma poderosa meditação sobre a efemeridade, a ruína e a sobrevivência. Em Ozymandias, sobrevive a Arte quando já desapareceram o poder e aquele que pretendia perpetuar-se através dela; aqui, perante estes novos fragmentos, a interrogação torna-se ainda mais radical: já não está apenas em causa a sobrevivência da obra, mas a sobrevivência da própria existência, porque, sem isso, um dia, em torno das ruínas da nossa magnífica civilização, poderá não haver nada mais do que o seguinte desolador panorama de que nos falou o poeta:
«The lone and level sands stretch far away.»2
É contra isto e pelo Planeta que José Teixeira Ribeiro cria.
Paulo Morais-Alexandre
Académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes / Portugal. Professor-Coordenador da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa. Comendador da Ordem do Ouissam Alaouite /Reino de Marrocos.
Afiliação científica: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA), Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal; Instituto Politécnico de Lisboa, Escola Superior de Teatro e Cinema, Avenida Marquês de Pombal, 22 B, 2700-571 Amadora, Portugal.
E-mail: pmorais@estc.ipl.pt
1. Que raízes se agarram, que ramos crescem [/] Destes escombros de pedra? Filho do Homem, [/] Não o podes dizer, nem adivinhar, pois apenas conheces [/] Um amontoado de imagens quebradas, onde o sol fustiga, [/] E a árvore morta não dá abrigo, nem o grilo alívio, [/] Nem a pedra seca qualquer rumor de água. Apenas [/] Há sombra sob esta rocha vermelha [/] (Vem para a sombra desta rocha vermelha), [/] E mostrar-te-ei algo diferente quer [/] da tua sombra, pela manhã, caminhando atrás de ti, [/] quer da tua sombra, ao entardecer, erguendo-se ao teu encontro; [/] mostrar-te-ei o medo num punhado de pó. […] Estes fragmentos escorei contra as minhas ruínas. [/] Pois então hei de ajustar-vos. Hieronymo enlouqueceu de novo. [/] Dai. Compadecei-vos. Dominai-vos. [/] Paz. Paz. Paz.
2. […] ilimitadas e nuas, [/] As areias solitárias e planas estendem-se até perder de vista.
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